Personas Literárias
Seguindo o modelo clássico do
narrador em busca de sua identidade, que faz a viagem de volta para seu
passado, Walmor Santos criou uma ficção, A
noite de todas as noites, que traz as marcas de Dom Casmurro, de Machado de
Assis. Nada, no entanto, menos machadiano do que o estilo literário do autor
gaúcho. Um estilo nascido nas oficinas literárias, onde bebeu da fonte das
teorias sobre a difícil e angustiante arte de escrever.
O que encontramos ao longo das
páginas desta ficção é o drama de um narrador dividido entre o homem comum que
é, um ser que sofre e vive prosaicamente seus amores, ódios e frustrações, e o
escritor tal como ele se vê. É uma luta entre o ser e a persona. Toda a
narrativa se assemelha a uma farsa em torno de personagens que são tipos:
Escritor, Outro, Velho Muito Velho, Filha, Aranha, Cigana. Estes personagens
não são seres individualizados, mas apenas cascas. E isso faz com que o leitor
não distinga as suas vozes, percebendo, na verdade, que por trás deles há
sempre o narrador.
Utilizando recursos da
literatura pós-moderna, Walmor Santos constrói uma narrativa centrada nos
dramas do escritor e de sua representação. Duas são as preocupações do
narrador: exorcizar um amor mal resolvido, pelo qual foi penalizado, e entender
a sua condição de escritor. Saindo da metrópole em busca da cidade do interior,
numa viagem de ônibus, este narrador, metaforicamente, faz a viagem ao seu
interior e ao passado, para tentar compreendê-lo. Mas, nesta viagem, ele sidera
sempre em torno de sua persona.
O objetivo do Escritor é
reencontrar a amada, que pode ser a filha, ou qualquer outra mulher, uma vez
que esta é, na verdade, apenas a Aranha, um ser/clichê, representação do outro,
da morte. Nesta trajetória, ele passa em revista fragmentos de idéias sobre a
arte de narrar, em sentenças definitivas, retiradas de um saber aforístico:
"Escrever é revoltar-se contra os deuses, é construir e dar ordem à sua
Torre de Babel. Deusificar-ser". Ou ainda: "As formas possíveis de se
contar uma história são apenas duas: narrar a verdade ou contentar-se em ser
apenas modelo ficcional". Há um longo rosário destas pérolas, fazendo com
que a narrativa seja retardada por divagações teóricas. Assim como o narrador
procura a mulher-Aranha ele também procura a sua história e a forma de
narrá-la. No fundo, trata-se de uma novela sobre a busca. Estar longe da mulher
é uma forma de distanciamento da literatura. Buscar a Mulher nas mulheres que
encontra é tentar descobrir nas receitas de escrever a Literatura.
Numa trajetória labiríntica, sem
um fio de Ariadne, o narrador busca uma saída e só consegue encontrar paredes.
O seu dilema é o de quem desconhece a porta certa e tenta todas, citando todos
os autores possíveis, ruminando fórmulas literárias, fazendo observações sobre
tudo. Enfim, o livro é um grande tributo ao questionamento, revelando este
narrador em crise.
Assim como os personagens são
protótipos, a linguagem é marcada por toda uma série de expressões consagradas.
E enquanto o narrador segue a sua viagem num ônibus, outra metáfora para o
próprio texto literário, visto como um espaço das múltiplas vozes,
multiplicam-se suas opiniões sobre o texto. Ele é um narrador que se constrói
fragmentariamente, fazendo ecoar outras vozes, como as de Quintana, Borges, Nietzche,
Darwin, Euclides da Cunha, Homero, etc.
Em A noite de todas as noites, Walmor se aproxima das artimanhas
narrativas de um narrador pós-moderno, na linha da literatura de Ricardo
Piglia, ficcionista que trabalha com histórias limítrofes entre a farsa e a
seriedade, entre a falsidade e a verdade. O texto todo é um assoalho perigoso –
quando nos pensamos seguros num caminho logo caímos num buraco e entramos num
outro cômodo, num outro nível do texto. Percorrendo estes compartimentos,
atingimos uma compreensão relativa desta novela/enigma.
Poderíamos, inclusive, dizer que
o que o autor quer não é escrever bem, nem retratar seres bem definidos, mas
montar uma narrativa com todas as impurezas, com uma inflação de teorizações,
congestionando nosso entendimento. Na verdade, ele investe não no texto
palatável mas na construção do enredo, na arquitetura textual. Assim, esta
novela se esmera para ser uma estrutura. A beleza não estaria nas partes (na
linguagem em si, no enredo bem delineado, na significação dos fatos), mas na
construção, no encaixe das partes.
Nesta espécie de parábola sobre
a narração, o Escritor que, a todo o instante tenta compreender-se, chega ao
final do livro e se volatiliza, desaparecendo. Resta apenas o livro que o
leitor tem na mão. Todo o fim de um livro é o fim de um universo, que está
inteiro nele. Ler é descobrir o fim de uma linha. Da última página do livro em
diante, é o vasto nada. Não existe mais a vida, a vida é apenas aquilo que está
contido pelas capas do volume. Ao escrever, o narrador exorciza-se e pode enfim
desaparecer, dando lugar para um outro narrador, uma outra dimensão
existencial/literária. A vida começa e acaba no livro. Os personagens ficam
restritos aos seus limites, ao seu labirinto. Todas as relações com o que está
fora do livro carecem de sentido, porque é só ele que existe.
Com A noite de todas as noites, Walmor mostra a sua crença na
literatura e o seu aprisionamento a ela. Sobressai aqui, mais do que em todos
os seus livros, seu interesse pelas artes de narrar e o seu papel pedagógico,
desenvolvido em centenas de escolas. Walmor faz literatura falando sobre
literatura. Ou seja, ele se vê como a persona de escritor.
MIGUEL SANCHES NETO é professor
universitário, escritor e crítico. Autor de Entre
dois tempos – Viagem à literatura contemporânea do Rio Grande do Sul, entre
outros.
SANTOS, Walmor. A noite de todas
as noites. Porto Alegre: WS Editor, 2000.
Material fornecido pelo próprio autor via e-mail em 03/06/2016
Material fornecido pelo próprio autor via e-mail em 03/06/2016
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