sexta-feira, 3 de junho de 2016

ADOTE - Walmor Santos - Persona Literária por Miguel Sanches Neto

Personas Literárias

Seguindo o modelo clássico do narrador em busca de sua identidade, que faz a viagem de volta para seu passado, Walmor Santos criou uma ficção, A noite de todas as noites, que traz as marcas de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Nada, no entanto, menos machadiano do que o estilo literário do autor gaúcho. Um estilo nascido nas oficinas literárias, onde bebeu da fonte das teorias sobre a difícil e angustiante arte de escrever.
O que encontramos ao longo das páginas desta ficção é o drama de um narrador dividido entre o homem comum que é, um ser que sofre e vive prosaicamente seus amores, ódios e frustrações, e o escritor tal como ele se vê. É uma luta entre o ser e a persona. Toda a narrativa se assemelha a uma farsa em torno de personagens que são tipos: Escritor, Outro, Velho Muito Velho, Filha, Aranha, Cigana. Estes personagens não são seres individualizados, mas apenas cascas. E isso faz com que o leitor não distinga as suas vozes, percebendo, na verdade, que por trás deles há sempre o narrador.
Utilizando recursos da literatura pós-moderna, Walmor Santos constrói uma narrativa centrada nos dramas do escritor e de sua representação. Duas são as preocupações do narrador: exorcizar um amor mal resolvido, pelo qual foi penalizado, e entender a sua condição de escritor. Saindo da metrópole em busca da cidade do interior, numa viagem de ônibus, este narrador, metaforicamente, faz a viagem ao seu interior e ao passado, para tentar compreendê-lo. Mas, nesta viagem, ele sidera sempre em torno de sua persona.
O objetivo do Escritor é reencontrar a amada, que pode ser a filha, ou qualquer outra mulher, uma vez que esta é, na verdade, apenas a Aranha, um ser/clichê, representação do outro, da morte. Nesta trajetória, ele passa em revista fragmentos de idéias sobre a arte de narrar, em sentenças definitivas, retiradas de um saber aforístico: "Escrever é revoltar-se contra os deuses, é construir e dar ordem à sua Torre de Babel. Deusificar-ser". Ou ainda: "As formas possíveis de se contar uma história são apenas duas: narrar a verdade ou contentar-se em ser apenas modelo ficcional". Há um longo rosário destas pérolas, fazendo com que a narrativa seja retardada por divagações teóricas. Assim como o narrador procura a mulher-Aranha ele também procura a sua história e a forma de narrá-la. No fundo, trata-se de uma novela sobre a busca. Estar longe da mulher é uma forma de distanciamento da literatura. Buscar a Mulher nas mulheres que encontra é tentar descobrir nas receitas de escrever a Literatura.
Numa trajetória labiríntica, sem um fio de Ariadne, o narrador busca uma saída e só consegue encontrar paredes. O seu dilema é o de quem desconhece a porta certa e tenta todas, citando todos os autores possíveis, ruminando fórmulas literárias, fazendo observações sobre tudo. Enfim, o livro é um grande tributo ao questionamento, revelando este narrador em crise.
Assim como os personagens são protótipos, a linguagem é marcada por toda uma série de expressões consagradas. E enquanto o narrador segue a sua viagem num ônibus, outra metáfora para o próprio texto literário, visto como um espaço das múltiplas vozes, multiplicam-se suas opiniões sobre o texto. Ele é um narrador que se constrói fragmentariamente, fazendo ecoar outras vozes, como as de Quintana, Borges, Nietzche, Darwin, Euclides da Cunha, Homero, etc.
Em A noite de todas as noites, Walmor se aproxima das artimanhas narrativas de um narrador pós-moderno, na linha da literatura de Ricardo Piglia, ficcionista que trabalha com histórias limítrofes entre a farsa e a seriedade, entre a falsidade e a verdade. O texto todo é um assoalho perigoso – quando nos pensamos seguros num caminho logo caímos num buraco e entramos num outro cômodo, num outro nível do texto. Percorrendo estes compartimentos, atingimos uma compreensão relativa desta novela/enigma.
Poderíamos, inclusive, dizer que o que o autor quer não é escrever bem, nem retratar seres bem definidos, mas montar uma narrativa com todas as impurezas, com uma inflação de teorizações, congestionando nosso entendimento. Na verdade, ele investe não no texto palatável mas na construção do enredo, na arquitetura textual. Assim, esta novela se esmera para ser uma estrutura. A beleza não estaria nas partes (na linguagem em si, no enredo bem delineado, na significação dos fatos), mas na construção, no encaixe das partes.
Nesta espécie de parábola sobre a narração, o Escritor que, a todo o instante tenta compreender-se, chega ao final do livro e se volatiliza, desaparecendo. Resta apenas o livro que o leitor tem na mão. Todo o fim de um livro é o fim de um universo, que está inteiro nele. Ler é descobrir o fim de uma linha. Da última página do livro em diante, é o vasto nada. Não existe mais a vida, a vida é apenas aquilo que está contido pelas capas do volume. Ao escrever, o narrador exorciza-se e pode enfim desaparecer, dando lugar para um outro narrador, uma outra dimensão existencial/literária. A vida começa e acaba no livro. Os personagens ficam restritos aos seus limites, ao seu labirinto. Todas as relações com o que está fora do livro carecem de sentido, porque é só ele que existe.
Com A noite de todas as noites, Walmor mostra a sua crença na literatura e o seu aprisionamento a ela. Sobressai aqui, mais do que em todos os seus livros, seu interesse pelas artes de narrar e o seu papel pedagógico, desenvolvido em centenas de escolas. Walmor faz literatura falando sobre literatura. Ou seja, ele se vê como a persona de escritor.
MIGUEL SANCHES NETO é professor universitário, escritor e crítico. Autor de Entre dois tempos – Viagem à literatura contemporânea do Rio Grande do Sul, entre outros.

SANTOS, Walmor. A noite de todas as noites. Porto Alegre: WS Editor, 2000.

Material fornecido pelo próprio autor via e-mail em 03/06/2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário