Walmor Santos
Alguns trechos iniciais de meu novo livro "Ícaro quer voar".
Na praça, ao lado da rodoviária, em um banco isolado, Ícaro está só. Aos pés, a mochila. Caem-lhe grossas lágrimas. Dois são os motivos: a mãe e a fuga. Sabe que a mãe pode morrer a qualquer instante. Tentou ficar com ela, mas o desespero do pai e a choradeira da vó Amanda o obrigaram à fuga. Precisava respirar. Também não sabe como a mãe vai reagir com sua ausência, porém ele não suporta mais assistir tanta tristeza. Está indo embora e não sabe para onde. Quer algo novo, viver os sonhos que ainda desconhece. A ânsia de ir é maior do que a de ficar. A mãe sofrerá um pouco mais do que já sofre; o pai, talvez diga que já foi tarde; a avó sentirá saudades em suspiros doloridos.
Tem que esperar uma hora para a partida.
Tem que esperar uma hora para a partida.
(...)
Ele não sabe realmente o que quer, além de fugir dessa vida medíocre e condenada ao pó do tempo. Seu único desejo é não ser como os pombos-correio do pai.
Nisso, ouve um ronco de motor. Vê o ônibus se aproximar da pequena rodoviária, que é também agência do correio, tabacaria e um hotel sujo, raramente ocupado. O ônibus quando chega traz mais mercadorias do que pessoas.
Nisso, ouve um ronco de motor. Vê o ônibus se aproximar da pequena rodoviária, que é também agência do correio, tabacaria e um hotel sujo, raramente ocupado. O ônibus quando chega traz mais mercadorias do que pessoas.
(...)
De repente, vê alguém pedalando a mil lá na esquina. Sente uma louca vontade de correr para o ônibus.
O menino na bicicleta para diante da lanchonete, olha para um lado, olha para outro, olha para ele e acena. Torna a montar, equilibra-se e pedala com inusitada pressa. Ícaro percebe o peso das palavras no desenho da mão nervosa no ar. A tarde nubla-se aos olhos dele, passa a ser terrivelmente escura, absurdamente silenciosa, parando o tempo.
Em fração de segundos lembra dos pombos-correio que o pai levava para bem longe, para adestrá-los no retorno às gaiolas. Odiava os pombos pela inconsciência da liberdade.
Agora sabe que no caminho até sua casa abriu-se uma cratera infinita e dolorosa. Vê perigo em cair e não poder jamais escapar. Tenta agarrar-se pelo olhar no cerro distante onde, em algum lugar, passa a rodovia que deveria levá-lo para muito longe, para sempre, para distante dessa dor, de suas perdas e de seus fracassos.
Sente apenas os soluços explodindo no peito, pedras na garganta e falta de ar. Não precisa ouvir nada para adivinhar o peso da mensagem.
Ao menos agora a mãe não mais sofrerá pela doença e por sua ausência.
Tenta novamente olhar para a distância e nada vê na paisagem. Conforma-se. O que vê é pela imaginação: a mãe e o nada.
O menino na bicicleta para diante da lanchonete, olha para um lado, olha para outro, olha para ele e acena. Torna a montar, equilibra-se e pedala com inusitada pressa. Ícaro percebe o peso das palavras no desenho da mão nervosa no ar. A tarde nubla-se aos olhos dele, passa a ser terrivelmente escura, absurdamente silenciosa, parando o tempo.
Em fração de segundos lembra dos pombos-correio que o pai levava para bem longe, para adestrá-los no retorno às gaiolas. Odiava os pombos pela inconsciência da liberdade.
Agora sabe que no caminho até sua casa abriu-se uma cratera infinita e dolorosa. Vê perigo em cair e não poder jamais escapar. Tenta agarrar-se pelo olhar no cerro distante onde, em algum lugar, passa a rodovia que deveria levá-lo para muito longe, para sempre, para distante dessa dor, de suas perdas e de seus fracassos.
Sente apenas os soluços explodindo no peito, pedras na garganta e falta de ar. Não precisa ouvir nada para adivinhar o peso da mensagem.
Ao menos agora a mãe não mais sofrerá pela doença e por sua ausência.
Tenta novamente olhar para a distância e nada vê na paisagem. Conforma-se. O que vê é pela imaginação: a mãe e o nada.
Texto encontrado no link: https://www.facebook.com/walmor.santos.98?fref=nf em 03/02/2016

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